sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Que gente somos nós (3)

“Que gente somos nós…” escrevia eu, com esperança de que não fôssemos. Afinal somos. A ansiedade (para não dizer esperança, que os tempos não estão para isso) pode ser inspiradora. A decepção, não. Para a gente que somos não escrevo mais. Estou “política” com essa gente. (Na minha terra do Sul, estar “político” com alguém é (ou era, quando as pessoas não tinham vergonha de falar ao jeito da sua terra) estar zangado, de relações cortadas.
Para honrar o blog que a minha amiga Helena me criou por sua iniciativa (não sou desta era, embora me renda à eficácia destas maneiras de comunicar), vou mantê-lo com o que é mais meu: os escritos que quase todos os dias me acontecem sob forma de versos. Vou chamar-lhes “A poesia de cada dia”. Remete para o Padre-Nosso, eu sei, é de propósito: eu, que já não rezo, nem faço yoga, nem sequer ginástica, tenho estar forma de me encontrar comigo. Sempre assim escrevi desde que aprendi a escrever mas só me publicaram em livro (a minha amiga Luísa da Costa) quando já ia avançada na idade: 50 anos. Só a partir daí comecei a pôr regularmente esses escritos em letra de forma.
Saber, hoje, que bastantes pessoas deles se alimentam impele-me a usar este blog que a Helena me deu de presente. Vou cozer a decepção, respirar fundo, e deixar a pena correr. Talvez amanhã. Ou depois de amanhã…    

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Analfabeto

«Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política é que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.»

Bertolt Brecht (1898-1956)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Que gente somos nós (2)

QUE GENTE SOMOS NÓS se não entendermos que o actual Presidente, que quer continuar a sê-lo, permitirá que transformem o país num imenso BPN – um descomunal casino em que os políticos comandarão, ou cobrirão os que comandam as roletas viciadas para fazer ganhar os do clube?
   Que gente somos nós se não percebermos que os pobres portugueses que somos vamos ficar cada vez mais pobres e mais endividados?  
   Pobres e estúpidos, se permitirmos que os batoteiros do casino se apoderem da nossa terra e das nossas vidas. E não percebermos que o Grande Economista e os do seu clube abrirão caminho para a destruição de tudo o que, a pulso, se conseguiu desde o 25 de Abril no sentido de impedir que alguém deixe de estudar ou de se tratar por não ter dinheiro, ou morra de miséria por estar desempregado ou velho.
   Para esses do casino o lema é: cada um por si e o Estado por eles, isto é, para lhes garantir as jogadas e até lhes cobrir as roubalheiras - como no caso do BPN, que está já, neste momento, a custar mais de mil euros a cada pobre português.
   Pobres dos estúpidos que somos se não percebermos que com essa gente no poder seremos cada vez mais pobres, mais desprotegidos, mais à mercê também desse grande casino internacional que é a Europa dos banqueiros, que quotidianamente nos ameaça.
   Que Presidente é este que nos propõe a atitude do medo: curvar a cabeça perante a Banca Internacional que nos coloniza, e de boca calada, que ela pode zangar-se e ainda subir mais os juros?!
   Vivemos, os da minha geração, a de Manuel Alegre, os que sofremos perseguições e o exílio, a ameaça de Salazar e da PIDE. Hoje acenam-nos com outro papão, mais angustiante porque não tem cara nem contorno. Não nos contentemos com cantar-lhe a canção que o expulsa “de cima deste telhado”: expulsemo-lo com o poder que o nosso voto nos dá.

Teresa Rita Lopes, cidadã apartidária desde sempre

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Que gente somos nós (1)

QUE GENTE SOMOS NÓS se reelegermos o actual Presidente esquecendo o que a sabedoria popular há muito fixou em forma de provérbio: “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”.
   O Presidente diz que ainda tem que nascer outra vez (acreditará ele na reencarnação?) alguém que seja mais honesto do que ele. Uma pessoa honesta desconfia que o querem enganar ou comprar quando lhe oferecem de bandeja um negócio excessivamente vantajoso: percebe que ali há gato. No caso do BPN havia mesmo gatunos, como se provou. Só prenderam um deles mas continuam à solta muitos dos que perfilham os seus processos e estão prontos para recomeçar – se se realizar a aliança que se prepara entre o partido que os apoia e o Presidente que querem eleger para lhes dar cobertura. 
   O que está em causa não é apenas a inocência do Presidente ao aceitar que um Banco lhe ofereça, pelos seus lindos olhos, uma aplicação de capital com juros de 140%, é o facto do Presidente apadrinhar essas desonestas instituições. O Grande Economista (que afirma ser) pratica e apoia a economia de casino com roleta viciada que está neste momento a pôr em risco não só a soberania de Portugal mas a da própria Europa, sem falar no que se passa, e pelas mesmas razões, nos Estados Unidos da América.
   A gente que somos tem votado no actual Presidente porque não tem percebido que ele não é o que quer parecer: uma pessoa simples, que veio de baixo, sem outras ambições além das de servir o seu país. Até diz que o pai o pôs a cavar batatas, quando reprovou nos estudos…( Ficamos assim a saber que era preguiçoso ou pouco inteligente, o que o não favorece na fotografia…)
   O actual Presidente acusa os seus rivais de “radicais” e “aventureiros”. Sê-lo-á Manuel Alegre por andar “a avisar toda a gente”, como manda o poema, que o Presidente e o partido que o apoia se preparam para destruir todas as conquistas de Abril por um país mais justo? A “aventura” a que Manuel Alegre  nos incita é apenas a de nos batermos por continuarmos a ser cidadãos livres, com direito à sobrevivência e a um trabalho que nos faça sentir dignos e responsáveis. Essa gente do partido que  apoia Cavaco quer escravos baratos, e por isso, para que aceitem trabalhar ao mais baixo preço, lhes convêm os despedimentos fáceis e o desemprego. Essa gente quer escravos submissos, medrosos, e por isso acautela os portugueses contra “os aventureiros” que os avisam e desafiam para o protesto.
   A minha geração, que é a de Manuel Alegre, viveu a repressão salazarista da Pide mas, se conseguíssemos  tirar um curso e não ser presos, tínhamos trabalho assegurado. E tínhamos ideais e esperanças, o que dava dimensão às nossas vidas. Que mundo temos hoje para oferecer aos nossos jovens?  O espectáculo desse pântano em que os crocodilos da Finança se refastelam, e abocanham e devoram os que se lhe aproximam para também viver.
   É preciso secar os pântanos e exterminá-los! Tirar-lhes a pele e pô-la a render. E são os nossos jovens que têm que o fazer, porque só eles terão a energia suficiente para isso. Mas temos que ser todos nós, com o nosso voto, a impedir que essa gente tome de assalto o país e as nossas vidas. Que para isso se preparam, não duvidemos um segundo.

Teresa Rita Lopes, cidadã independente